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terça-feira, 21 de março de 2017

Como funciona a Deep Web



Deep web: o que é e como funciona - G1 Explica

Se você tem alguma dúvida sobre segurança da informação (antivírus, invasões, cibercrime, roubo de dados etc.) vá até o fim da reportagem e utilize o espaço de comentários ou envie um e-mail para g1seguranca@globomail.com. A coluna responde perguntas deixadas por leitores no pacotão, às quintas-feiras.



"G1 Explica" é uma série da coluna Segurança Digital que explica conceito, ataques e tecnologias em uma forma de perguntas e respostas. O assunto de hoje é a "deep web", ou "web profunda" . Confira:





1. O que é a deep web?
O termo "deep web" ("web profunda") tornou-se um termo geral para se referir a todo um conjunto de sites e servidores de internet. Explicar o termo, portanto, não é mais tão simples.



Originalmente, a "deep web" eram os sites "invisíveis" - páginas que, por qualquer motivo, não apareciam em mecanismos de busca, especialmente no Google. Eram páginas que, para serem encontradas, necessitavam do uso de diversos mecanismos de busca em conjunto, além de ferramentas adicionais e ferramentas de pesquisa individuais de cada site.


O termo se popularizou com uma definição mais compacta para se referir aos sites que necessitam do uso de programas específicos para serem acessados. O mais popular entre eles é o Tor, mas existem outros softwares, como Freenet e I2P. O emprego do termo "deep web" é incorreto neste contexto - o termo certo seria "dark web" (web escura).


Porém, como esses sites precisavam de ferramentas especiais para serem acessados, eles não apareciam em mecanismos de pesquisa e, assim, as duas definições não eram incompatíveis. No entanto, com o passar do tempo, parte desses sites de acesso exclusivo via Tor foi disponibilizada (via "pontes de acesso") na web normal - que não necessita de software especial. Com isso, o conteúdo que antes era dessa web "inacessível" foi parar até mesmo no Google. Acessar esse conteúdo, portanto, é tão fácil quanto acessar qualquer outro site.

É muito difícil saber com certeza se o termo deep web está sendo usado para se referir a um canal de acesso via Tor ou a páginas e serviços de acesso realmente limitado e restrito, independentemente da tecnologia.



2. Qual a diferença entre deep web e dark web?
Com base nas definições mais puras, um site da "deep web" não tem seu conteúdo disponibilizado em mecanismos de pesquisa e, portanto, não pode ser encontrado, exceto caso por quem conhece o endereço do site.



A "dark web" consiste dos sites que existem primariamente em redes anônimas e que necessitam de programas especiais. O Facebook, por exemplo, tem uma versão de seu serviço na dark web. No entanto, o meio de acesso principal não é este. Mas há outros sites que existem exclusivamente nessa dark web e não podem ser acessados sem o uso de programas como Tor, I2P e Freenet.



3. Que tipo de conteúdo há na deep web?
Como a "deep web" se refere a qualquer conteúdo fora dos mecanismos de pesquisa, a definição é bastante ampla. Existe muito conteúdo legítimo disponível na web e que nem sempre pode ser encontrado com uma pesquisa em mecanismos de pesquisa geral. Um exemplo disso são decisões judiciais, que muitas vezes exigem pesquisas diretas nos tribunais onde tramitaram.



A deep web também pode consistir de sites com conteúdo pessoal, páginas cujos donos decidiram não incluir em mecanismos de pesquisa por qualquer motivo, páginas que nunca receberam links de outros sites (porque só foram compartilhadas por e-mail, por exemplo) e também espaços para a troca de conteúdo ilícito, como pirataria. Como esses sites muitas vezes fornecem arquivos grandes para download, não é sempre prático manter esse conteúdo na "dark web", onde as velocidades costumam ser menores.



4. Que tipo de conteúdo há na dark web?
A dark web, por fornecer mecanismos de anonimato, é atraente para ativistas políticos, hacktivistas e criminosos virtuais, além pessoas que buscam compartilhar conteúdo que foi censurado. Com ações policiais que derrubaram sites de abuso sexual infantil da web comum, parte desse conteúdo também passou a ser disponibilizado pela dark web.



A dark web também é notória por oferecer lojas virtuais de mercadorias proibidas ou de difícil acesso, inclusive drogas (lícitas e ilícitas) e armas.



Como a dark web também serve como meio anônimo para acesso à web comum, ela pode ser usada para burlar bloqueios de rede (como os que existem na China). Em outras palavras, nem todo mundo que utiliza a tecnologia da dark web pode estar interessado nos conteúdos que estão presentes nela, mas sim no anonimato que ela fornece para o acesso a qualquer conteúdo.



5. Por que alguns sites ficam fora dos mecanismos de busca?
Os mecanismos de busca, como o Google, precisam, em primeiro lugar, encontrar um site. Isso normalmente ocorre com links. Quando uma página que o Google já conhece coloca um "link" para outra página, o Google segue esse link e passa a incluir essa página em sua busca (um processo chamado de "indexação").



Porém, mesmo que haja um link para a página, ela pode ainda bloquear mecanismos de pesquisa. Isso pode ser feito via rede (bloqueando os endereços IP da rede dos mecanismos de pesquisa) ou utilizando mecanismos oferecidos pelos próprios sites de busca que permitem a um site indicar qual conteúdo pode ser indexado. Um site pode facilmente determinar que a indexação de suas páginas é proibida e, nesse caso, elas não aparecerão nos mecanismos de busca mais comuns, que honram essas configurações.



Alguns conteúdos exigem buscas específicas. As decisões Judiciais, por exemplo, só podem ser encontradas por alguém que sabe um número de processo ou a OAB de um advogado para pesquisar nos sites dos tribunais. Os mecanismos de pesquisa não têm essas informações e não "sabem" preencher o formulário. Por isso, esse conteúdo tende a ficar fora do alcance.



Certos conteúdos também não podem ser indexados por causa do formato em que estão armazenados. Um conteúdo pode existir na web como um arquivo de áudio ou vídeo que o mecanismo de busca não consegue transcrever para texto. Nesse caso, o conteúdo também não vai ser encontrado, a não ser que você saiba especificamente o nome do arquivo ou título do arquivo multimídia.



6. Por que a dark web necessita de programas específicos?
A internet só funciona graças a um grande acordo que existe na web: todos os sites, navegadores e sistemas operacionais "falam" um conjunto de "línguas" em comum. Esses são os "protocolos de rede".



A dark web estabelece uma camada de protocolo nova que o computador não conhece. E, com isso, automaticamente esses sites se tornam incomunicáveis.



O objetivo dessa camada adicional é normalmente a garantia do anonimato dos usuários. Os detalhes técnicos variam em cada protocolo, mas a maioria estabelece uma série de intermediários em cada conexão. Certos participantes da rede (que podem ser todos ou só alguns) tornam-se intermediários das conexões dos demais usuários e, com isso, qualquer visita ou acesso fica em nome desses usuários e não em nome do verdadeiro internauta.



7. É possível quebrar o anonimato da dark web?
De modo geral, sim. Mas as técnicas exigem certos recursos tecnológicos avançados e, às vezes, um pouco de sorte.



Uma delas é conseguir controlar um grande número de sistemas intermediários na rede. Se o número de sistemas controlados for grande o bastante, o interessado pode conseguir fazer alguma ligação entre o usuário e o conteúdo acessado. Essa é uma operação de médio prazo, já que é preciso monitorar os acessos por um bom tempo até que as ligações possam ser feitas sem depender da sorte.



Outro meio, que vem sendo bastante empregado pelo FBI, é a instalação de programas espiões. A autoridade policial faz isso após conseguir uma autorização da justiça para tomar o controle de um serviço disponibilizado na rede anônima (a identificação deste depende de outros métodos, como o mencionado acima ou então cooperação de um delator). Uma vez podendo controlar o site, um código especial é colocado na página para tentar contaminar os usuários com vírus e relatar as informações ao FBI. Isso, no entanto, depende de vulnerabilidades no software do possível investigado, o que nem sempre pode ser fácil de explorar.



Essa técnica foi utilizada em um site com imagens de pornografia infantil, por exemplo. O FBI foi criticado por temporariamente ter mantido o site no ar em vez de retirá-lo imediatamente, mas a Justiça americana entendeu que a medida foi necessária para colher mais informações sobre os visitantes da página.

Fonte G1

Postado por Raizes Culturais às 10:03 Nenhum comentário:
Marcadores: dark web, Deep Web, internet escura, Internet profunda, TOR

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Deep web, o submundo da internet, começa a entrar na mira da polícia


Artigo de
Larissa Leiros Baroni
Do UOL, em São Paulo

Ainda que seja um mundo obscuro e desconhecido por muitos, a Deep Web não é alheia às leis. Parte desse sistema reúne uma série de crimes que incluem venda de drogas, assassinos de aluguel e até grupos de pedofilia. E seus atores, apesar de se esconderem em um suposto "inviolável anonimato", nem sempre ficam impunes. A punição, no entanto, é muito aquém do necessário, segundo Frederico Meinberg Ceroy, presidente do IBDDIG (Instituto Brasileiro de Direito Digital).

A Deep Web, como explica o Franzvitor Fiorim, engenheiro de vendas da Trend Micro - Brasil, é o termo usado para se referir a uma rede de páginas não indexadas, "ou seja, essa rede é invisível a grande maioria dos usuários -- portais tradicionais de pesquisa não podem encontrar nada nessa rede". Segundo ele, a rede é frequentemente associada com TOR, Freenet e outros softwares de anonimato. "Todas as três podem ser classificadas como darknets, e são uma parte da Dark Web, uma seção do Deep Web que requer ferramentas ou equipamentos especializados para acesso."

Estima-se que esse espaço virtual seja 400 vezes maior do que a internet comum e esconde um mundo de atividades criminosas que buscam anonimato. Dados indicam que mais de 25% das buscas entre a Deep Web e a internet padrão são com fins de exploração infantil e pornografia. Assassinatos também podem ser encomendados por cerca de US$ 180 mil (cerca de R$ 700 mil), segundo a empresa de segurança online Trend Micro.

A maconha é a mercadoria mais vendida neste ambiente online, em seguida vêm os medicamentos como Ritalina e Xanax, mais conhecido como Alprazolam. No terceiro lugar do ranking aparece o ecstasy. Já a quarta posição é dividida pelo LSD, a metanfetamina, os cogumelos, a heroína, sementes e videogames. Nessa obscura terra também é possível conseguir a cidadania americana. Sites especializados criam passaportes por US$ 5.900 (cerca de R$ 23 mil).

Um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (13) revelou que malwares bancários são os principais dentre as ofertas no mundo cibercriminoso brasileiro, graças à popularidade do internet banking por aqui. Por R$ 5.000, os compradores podem registrar as teclas digitadas de até 15 sites. Por R$ 300 faz-se curso para formação de hackers para roubar dados de cartões de crédito, e, por R$ 200, compram-se dez credenciais. E no Brasil, essas negociações costumam ser mais frequentes em fóruns públicos, não na Deep Web.

A conclusão do relatório de segurança é que o cenário socioeconômico do Brasil tornou o país um terreno fértil para os cibercriminosos. "O lucro rápido prometido se tornou atraente o bastante para vários indivíduos. Isso, por sua vez, atrai mais pessoas querendo seguir seu exemplo. O governo nacional precisa investir mais recursos nas investigações, principalmente quando o cibercrime brasileiro migrar para o território da Deep Web".
Facebook Departamento de Polícia Federal - MJ



Fechando o cerco

Apesar de ser mais difícil rastrear transações na internet que "foge aos olhos", isso não quer dizer que os crimes cometidos ali ficam impunes. "Já foram realizadas diversas operações policiais, até mesmo no Brasil, onde várias pessoas foram presas, desde criadores e mantenedores de sites", aponta Fiorim. O especialista em segurança digital Willian Caprino, acrescenta que também é bastante comum ao navegar pela DarkWeb acessar a sites com o logotipo de alguma força policial (FBI, por exemplo), informando que aquele site foi desativado.
Facebook Departamento de Polícia Federal - MJ




O caso mais emblemático no mundo é o do Silk Road, um site que vendia diversos tipos de drogas. Ross Ulbricht, o criador da página, foi condenado em maio deste ano à prisão perpétua, segundo decisão de uma corte federal de Manhattan, em Nova York (EUA). No Brasil, o destaque é para a operação Darknet, deflagrada pela Polícia Federal em 2014, que desmascarou uma série de crimes de armazenamento e divulgação de imagens e abuso sexual de crianças e adolescentes.

A operação, como classificou a PF, é resultado de uma investigação inédita. "Mas infelizmente não podemos divulgar de que maneira a Polícia Federal identificou os diversos criminosos que se utilizavam da Deep Web para divulgar imagens contendo cenas de cunho sexual de bebês, crianças e adolescentes", informou Fernando Schwengber Casarin, chefe do Grupo de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF no Rio Grande do Sul.

Segundo ele, a investigação começou com a coleta de informações de operações anteriores, seguida pelo desenvolvimento de uma metodologia (que não é revelada), com a inteligência policial e testes de eficiência do método, que resultaram em flagrantes antes da deflagração da Operação e o cumprimento de ordens judiciais em 18 Estados e no Distrito Federal. A investigação durou cerca de um ano. "Ao todo, 53 pessoas presas em flagrante, e acreditamos que muitas crianças deixaram de ser vitimas de abuso sexual, mas é impossível quantificar", relatou Casarin.
No Brasil ainda é pequeno

"Os Estados Unidos e a Itália são as referências no que diz respeito às investigações realizadas neste ambiente obscuro da internet. No Brasil, os casos são mais isolados e se restringem a grupos de pedofilia -- basicamente não há investigação", afirmou o presidente do IBDDIG.

A ausência de investigações no país, segundo ele, pode estar relacionada ao tamanho das páginas em português na "Deep Web". De acordo com o relatório da Trend Micro, a maior parte das URLs na rede está em russo (41.40%) e inglês (40.74%). Em português, há 1,25% das páginas.

A Delegacia de Delitos Cometidos por Meios Eletrônicos do Estado de São Paulo informou ao UOL Tecnologia que não tem nenhuma investigação em andamento de atos cometidos na Dark Web, mas diz usar o mundo obscuro da internet como suporte para averiguações de crimes cometidos no mundo real.
Como são as investigações

O anonimato garantido pela Dark Web, segundo Fiorim, dificulta o rastreamento e a identificação dos cibercriminosos, bem como a investigação dos crimes cometidos na rede. Mas, como completa Caprino, as técnicas de anonimidade nunca são 100% eficazes. "O indivíduo eventualmente pode cometer alguma falha ou se expor de alguma forma no mundo físico que o identifique", afirma o especialista.

Para se chegar aos criminosos que tentam se manter anônimos, infiltração e armadilhas são técnicas usadas. "As armadilhas são bem comuns nas investigações norte-americanas, já que são amparadas pela lei local. No Brasil, no entanto, essa medida é mais restritiva", afirma Giuliano Giova, presidente do Instituto Brasileiro de Perito, que disse ter participado da perícia realizada em algumas investigações envolvendo a Dark Web. Ele, no entanto, não deu detalhes sobre as operações.

A legislação brasileira, como destaca Ceroy, só permite o chamado flagrante preparado mediante a investigação de organizações criminosas que possam colocar em risco a vida de crianças e/ou adolescentes.

Ainda assim, de acordo com Giova, as investigações são baseadas em um sistema de inteligência. "Se você está investigando um grupo que cria explosivos, por exemplo, é preciso traçar a lista de pessoas que saibam montar uma bomba, que tenham acesso às ferramentas, às matéria-prima e possuam a logística necessária para tal." O segredo, como ele aponta, é ter objetividade. "Com o tamanho desta rede, se você não tiver objetividade não chega a lugar nenhum."
Facebook Departamento de Polícia Federal - MJ



Real e virtual juntos

Outro possível caminho está relacionado ao método invasivo --desde que com a autorização judicial. "Com infiltração em grupos e fóruns de discussão, não apenas na Deep Web, mas também na internet e na vida real. Essa tem que ser uma atividade unidirecional", aponta Giova.

Há ainda o uso de uma tecnologia capaz de identificar os servidores -- cada usuário possui ao menos três para dificultar a identificação de onde está vindo o tráfego e para onde ele vai. "Dois dos servidores no caminho, chamados de "relay", têm um pouco mais de informação. O primeiro, onde o usuário está conectado e o último, onde o serviço está conectado. Se uma força policial estiver monitorando esses dois relays, pode usar uma técnica, baseada em estatística, que pode evidenciar e violar o anonimato do usuário", explica Caprino.

Para Fiorim, a fragilidade da rede está no encontro dos meios "físicos e virtuais", como por exemplo, na comercialização de drogas ilícitas. "Ou seja, na maioria das vezes, é necessário que haja uma ação criminosa no meio físico para que seja efetuado a identificação/captura do cibercriminoso", afirma o engenheiro da Trend Micro.

Os peritos, como acrescenta Giova, também se aproveitam das brechas abertas pelos próprios usuários. "A maioria dos usuários é leigo e não conhece profundamente tecnologia. Muitas vezes acaba gerando uma série de rombos na criptografia".
O lado bom da Dep Web

"A Deep Web, no entanto, não é terra dos criminosos. Não é porque tem coisa ruim é que toda a coisa é ruim", defende Caprino. Segundo o especialista em segurança digital, a rede foi criada para dar voz às pessoas que precisam fugir da vigilância de governos autoritários, seja jornalistas, dissidentes políticos, informantes, ativistas e militares.

A Primavera Árabe --onda de protestos populares que desencadeou a queda de governos ditatoriais no Oriente Médio-- foi um grande exemplo de como redes que garantam privacidade e o anonimato podem contribuir positivamente.
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domingo, 20 de julho de 2014

Dark web ou deep web, a internet do crime


Milhares de pedófilos estão usando a chamada dark web


Mônica Vasconcelos
Da BBC Brasil em Londres 19/07/201410h28


Milhares de pedófilos estão usando a chamada dark web, (internet obscura, em tradução livre), para compartilhar, vender ou acessar imagens de crianças sofrendo abuso sexual.

Um britânico que disse ter fundado um desses sites disse à BBC disse que a página chegava a receber 500 visitantes por segundo. Segundo ele, o site não está mais em funcionamento.

Em um relatório publicado neste ano, a agência de combate ao crime na Grã-Bretanha disse que criminosos estão cada vez mais se voltando para uma internet paralela, por onde passeiam de forma anônima, para realizar atividades ilegais.

No Brasil, "boa parte dos usuários são curiosos, que querem apenas ver o que existe por lá e ter a sensação de adentrar em um território da internet que é cercado de tabus", disse o advogado e especialista em tecnologia e mídia Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).

Segundo ele, uma fração menor de pessoas entra na dark web para praticar atividades ilícitas. E outra fração entra em busca de privacidade, de um canal de comunicação que não seja monitorado ou espionado.

A BBC Brasil conversou com a especialista em ciência da computação Juliana Freire, que faz pesquisas na New York University, nos Estados Unidos. Freire está prestes a embarcar em um projeto que deve revolucionar a forma como fazemos buscas na internet, permitindo, inclusive, que identifiquemos conteúdos "escondidos" na dark web.

E apesar de sua determinação em conhecer e explorar os conteúdos desse universo, a pesquisadora não parece preocupada com a existência dessa internet obscura, fora do alcance das ferramentas de busca comuns - e das autoridades.

"Tráfico humano, pedofilia, esssas coisas aconteciam. Pelo menos, se está lá e você conseguer ver o conteúdo, você sabe que elas existem".

Definições

A internet visível, ou surface web (internet de superfície), é uma porção minúscula de uma rede gigantesca, a deep web (internet profunda).

Esta rede profunda engloba bancos de dados cujo conteúdo não está indexado e, portanto, não pode ser acessado por ferramentas de busca como o Google.

Imagine, por exemplo, um site de venda de carros de segunda mão. As informaçõe sobre os carros estão dentro do site, mas você só tem acesso a elas quando preenche um formulário dizendo que tipo de carro está procurando.

Também podemos incluir nessa web profunda uma porção da rede onde a publicação de conteúdos, bem como o acesso a eles, acontecem de forma anônima. Essa é a dark web, ou internet obscura.

A dark web inclui, por exemplo, redes como a Tor Network. Para acessá-la, é preciso baixar o Tor Browser. Esse browser torna o endereço do seu computador indetectável. Você viaja anônimo, tanto pela internet regular, quanto pela rede obscura.

Da mesma maneira, se você cria um site na rede Tor, o conteúdo fica lá, mas sua identidade não.

"Se crio um site, tenho de registrá-lo e criar um IP address, para identificação", explica Freire. "Mas essas redes criam o IP address e ninguém sabe quem eu sou".

Essa internet anônima é usada para todo tipo de atividade ilícita, como tráfico humano e tráfico de drogas.

Um desses sites, o supermercado de drogas Silk Road, operou na rede Tor durante mais de dois anos, até ser fechado pelo FBI.

Mas a Tor também é usada por militantes, intelectuais e outros grupos que precisam permanecer anônimos para sua segurança pessoal.

"No Irã, muitos usam o Tor para acessar a internet, na China acontece a mesma coisa", diz Freire.

Passeio Perigoso?

A ideia de uma internet secreta, co-existindo com a rede visível, porém inacessível à maioria de nós, habitada por criminosos e libertários, parece coisa de ficção científica.

Freire diz que já passeou por essas terras sem lei. Não são necessariamente perigosas, ela diz. Mas contêm armadilhas onde podem cair os viajantes menos experientes.

"Já brinquei com isso. Fiz buscas sobre tráfico humano e não vi nada. Então, digitei a palavra cocaína e encontrei vários sites de venda. Mas meus colegas me disseram que muitos desses sites são armadilhas que o governo coloca lá para pegar você".

"Você não sabe se é o governo ou se é um traficante de verdade - mas também é assim no mundo aqui fora".

A rede profunda inclui, ainda, sites desativados que permanecem ali no cyber space, como prédios fantasma.

Alguns especialistas tentaram, ao longo dos anos, quantificar, dar uma dimensão à internet profunda. Os resultados variam. Em 2001, o acadêmico americano Michael K. Bergman publicou um estudo sugerindo que a deep web seria entre 400 e 550 vezes maior do que a internet de superfície e que ferramentas de busca convencionais estariam alcançando apenas 0,03% do total de páginas disponíveis.

Juliana Freire, no entanto, desconfia desses números.

"Alguns tentaram medir isso mas não consigo acreditar nos estudos mais recentes que li, não estou convencida. É difícil de estimar o tamanho dessas coisas".

Desafio

E à medida que a internet cresce e se transforma, cresce também o desejo de cientistas como Juliana Freire de explorá-la. Governos e autoridades, por outro lado, querem domá-la.

Até 2011, Freire trabalhava para a University of Utah, em Salt Lake City. Lá, esteve envolvida no projeto Deep Peep, que se propunha a desenvolver ferramentas para indexar conteúdos armazenados em bancos de dados na internet profunda.

"A ideia era indexar todos esses bancos de dados para que a gente pudesse ter acesso a eles usando um sistema de buscas comum, como o Google", explica Freire.

"Uma ferramenta como essa é útil se você está interessado em conteúdos que vêm de fontes diferentes". Ou seja, ela evita que você tenha de entrar individualmente em cada um dos sites para procurar a informação. Fazendo um paralelo, Freire cita sites de comparação de preços, que coletam dados de várias empresas oferecendo um determinado serviço.

"Encontrar os dados necessarios para sites de comparação, e para engenhos de busca verticais, requer um processo laborioso. O nosso objetivo era criar uma forma mais rápida, eficiente e automática de descobrir os sites que serviam de ponto de entrada para bancos de dados online".

Parte da tecnologia usada no Deep Peep foi patenteada pela University of Utah.

Agora, Freire se prepara para um novo desafio. Ela é uma entre vários pesquisadores participando do programa Memex, a convite da Defense Advanced Research Project Agency (Darpa), uma agência do Exército americano.

O programa tenta criar um novo paradigma para buscas na internet, explica Freire.

"Grupos foram convidados a criar um conjunto de ferramentas que nos permitam fazer buscas sob medida. Por exemplo, estou interessada em um tópico e quero fazer uma busca na internet profunda. Então eu digo, me faz uma busca e um relatório desse assunto de acordo com as especificações tais".

"Ou seja, são ferramentas que te ajudam a encontrar e analisar dados".

Um detalhe importante é que essa nova tecnologia permitirá fazer buscas na internet obscura.

"O Memex quer ver tudo, quer ver dark web, surface web, deep web", ressalta Freire.

"Essa tecnologia tem várias aplicações. Vai ajudar governos a encontrarem conteúdo que está escondido na darkweb - por exemplo, conteúdo sobre tráfico humano. Vai ser útil no jornalismo investigativo, em pesquisas... para a ciência, (uma tecnologia como essa) é fundamental".

Efeito Snowden

Em maio de 2013, um consultor da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, Edward Snowden, denunciou para o mundo que o governo dos Estados Unidos vinha secretamente arquivando comunicações entre cidadãos feitas pela internet e por telefone.

Na época, Snowden disse ao jornal britânico The Guardian que não queria viver em um mundo onde "tudo o que faço e digo é gravado".

Nesse contexto, a ideia de que exista uma rede de comunicações fora do alcance de governos e autoridades ganha um atrativo a mais.

"Apesar do intenso preconceitos contra as chamadas deep web e dark web, são canais que surgiram a partir de ferramentas de proteção à privacidade", diz Ronaldo Lemos.

"Em vários países do mundo, especialmente em regimes autoritários onde a rede é controlada e as liberdades civis ameaçadas, esse tipo de de espaço torna-se um dos poucos ambientes públicos onde é possível manifestar pensamentos e opiniões de forma livre". E acrescenta:

"Não existe apenas uma dark net, mas várias. Elas são uma consequência da estrutura aberta da internet. Apesar dos inúmeros problemas que elas trazem e que devem ser combatidos, eles são o preço a se pagar por manter a internet com uma arquitetura descentralizada, livre e aberta".

Para Juliana Freire, no entanto, a vigilância pelo governo é um problema menor.

"O Google, o Facebook, o Twitter, sabem de tudo. O Google está lendo todos os seus e-mails.

"Você querer privacidade e ficar preocupada com o governo é bobagem porque tem companhias que provavelmente saberm mais do que o governo".

"Imagina o tanto que você revela ao Google só ao fazer buscas?", questiona.

"A privacidade é impossível. O que é necessário é regulamentação, porque agora não dá mais para parar esse processo".

fonte: http://tecnologia.uol.com.br/noticias/bbc/2014/07/19/internet-oculta-os-segredos-de-um-universo-paralelo.htm

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